A INTERVENÇÃO DO GOVERNO WAGNER NA PRODUÇÃO DE COURO DE IPIRA(Parte 02)
É comum se ouvir de empresários bem sucedidos que, se o governo não atrapalhasse as atividades empresariais já estaria ajudando muito. Este é um pensamento com o qual não concordamos. Não, porque ele é a essência do liberalismo econômico em sua origem. Recordo que na pré-Revolução Industrial, um cidadão escocês chamado Adam Smith o pai do liberalismo econômico, já dizia em sua famosa obra “A Riqueza das Nações”, que: “o individuo ao buscar realizar seus próprios interesses, estará realizando sem saber, o interesse de toda sociedade”. Essa frase ficou conhecida mundialmente como a “metáfora da mão invisível” e foi apropriada por teórico e políticos, para nortearem suas ações e fundarem a ideologia do estado-minimo e da não-intervenção do Estado na vida econômica das nações capitalistas.
No entanto, a trajetória histórica, depois de mais de dois séculos, mostrou que o liberalismo e sua ideologia do estado-mínimo gerou exclusão e miséria por toda parte. Para que haja inclusão social e econômica daqueles que estão vivendo á margem do desenvolvimento ou na informalidade, a intervenção do poder público é decisiva. É forçoso o reconhecimento de que se deixado à própria sorte, os pequenos empreendedores serão devorados pela força avassaladora do grande capital.
Até que o capitalismo se mostrou eficiente na geração e concentração de riquezas. Porem do lado da distribuição, que deveria ser o seu primeiro objetivo foi um desastre social. Portanto, se os pequenos produtores não se organizarem, de forma cooperativa e solidária, com o apoio do governo e da própria sociedade civil, perderão seu espaço heroicamente conquistado no mundo dos negócios.
A produção manufatureira de obras de couro em Ipirá é uma produção espontânea que demonstra a capacidade criativa de homens e mulheres inspirados na confiança no trabalho honesto. Há quase um século, essa comunidade criativa (originária de povoados e comunidades rurais) produz para atender a demanda de produtos úteis e necessários a cada época de sua existência. Primeiro, fornecendo roupa e artefatos de couro para os vaqueiros e suas montarias. Agora, reafirmando a sua ilimitada capacidade de adaptação aos novos tempos, produz obras de couro mais sofisticadas que atende não mais as necessidades dos antigos clientes, mas às pessoas comuns e até mesmo às elites, uma vez que tem capitado as tendências da moda, produzindo bolsas, cintos, calçados etc para cavalheiros e damas do povo e da alta sociedade, conquistando mercados em feiras-livres e shopping centers em quase todos os grandes centros urbanos nacionais e até no exterior.
Daí a importância da intervenção positiva do governo para reduzir a assimetria do poder econômico. Entretanto qualquer intervenção do poder publico nas atividades produtivas de artefatos de couro de Ipirá precisa ser estudada e avaliada por critérios econômicos, sociais e culturais para que não venha produzir efeitos contrários ou inversos aos desejados. É preciso conhecer esse processo produtivo a fundo.
Aos observadores mais atentos dessa atividade não pode escapar certas peculiaridades e características que lhes são próprias. Parece até que a Revolução Industrial, aquela que ocorreu na Europa no século XVIII, está chegando aqui neste momento. As relações de produção, especialmente as relações de trabalho, são as mais precárias, conservando apesar do tempo decorrido seus traços contraditórios e conflitivos. Lá na Inglaterra, há dois séculos, os trabalhadores trabalhavam mais de quinze horas diárias. Não tinham nenhum direito trabalhista e previdenciário. Homens, mulheres e crianças eram explorados igualmente. A divisão do trabalho e a linha de montagem se estabeleceram para mudar todo o processo de produção. O artesanato praticamente desapareceu e os artesãos que tiveram mais sorte se tornaram operários, mas a maioria deles foi excluída, pois se tornaram inúteis ao novo sistema.
Aqui em Ipirá, em grande parte das “industrias de fundo de quintal”, que alguns insistem em chamar isso de artesanato, ocorre o mesmo. Lá pela ganância de acumular capital. Aqui pela necessidade de continuar uma atividade de baixa produtividade, pela falta de recursos para adotar métodos produtivos e tecnológicos mais modernos existentes no mercado, o que coloca estes pequenos produtores em atitudes defensivas, mesmo que isso signifique a mais cruel exploração e a mais acirrada e darwiniana competição entre eles. Este é o custo pago por todos os excluídos do mercado oficial para continuar existindo. Mal assim, porém as coisas sempre podem ser piores para eles. Não ter o que fazer para conseguir pequenos rendimentos é ainda mais doloroso e todos sabem disso muito bem.
Como já dissemos, por mais nobres que sejam as intenções de uma intervenção governamental nesse processo ela deve ser bem criteriosa. Lembro aqui, a propósito, aquela estória do homem que ao ver um peixinho se debatendo entre pedras de uma pequena correnteza foi socorrê-lo. Pegou o animalzinho aquático, tirou-o da água, mas, logo depois percebeu que o peixinho estava morrendo em suas mãos por falta de oxigênio. Pois bem, se não agir com competência neste ambiente produtivo de obras de couro em nosso município, em lugar da pretendida boa ação, como fez o homem que queria salvar o peixinho, pode-se estar asfixiando os pequenos empreendedores.
A pequena produção manufatureira desse segmento, com grande freqüência, ocorre literalmente em fundo de quintal. A primeira pergunta a se fazer nesse caso, em meu entendimento, é: por que elas funcionam nesses locais? A primeira resposta é bem obvia: Os donos não têm condições de possuir instalações mais adequadas. A segunda, pode não ser tão clara assim para os que não conhecem bem o processo. Vou arriscar um palpite para provocar uma discussão: será que não é por medo do governo? Medo da fiscalização do poder publico? Medo de pagarem impostos e ter que cumprir as obrigações trabalhistas e previdenciárias?
Soube de um caso em que o proprietário contratava menor de idade para trabalhar lá no fundo da casa escondido, embora houvesse espaço na frente de sua residência.
Nesse “submercado", se tiver que pagar impostos, cumprir obrigações sociais e trabalhistas, os proprietários fecharão as portas, perdendo o próprio emprego e o de seus comandados.
Esse produtor, como muitos outros, talvez não aceite a principio se incorporar ao “parque industrial” que o prefeito Diomario reivindicou como ajuda do estado, para oferecer aos pequenos empreendedores do ramo. Acho que todos estão de acordo com essa justa solicitação e com muitas outras complementares. Por exemplo, já que não se pode pedir anistia de obrigações trabalhistas por ser injusta com os trabalhadores, que se exija anistia fiscal para esses produtores durante o tempo necessário para que os mesmos possam se estruturar. Afinal de contas, concederam anistia desse tipo para a industria de calçados Paquetá. Essa industria do Rio Grande do Sul impôs essa condição para se instalar aqui e a obteve, alem do terreno terraplenado. Dizem que até galpões conseguiu. As industrias forâneas que sob o argumento de descentralização industrial obtém esse tipo de ajuda publica, além de reduzir seus custos ficam livres para migrarem para outras regiões quando não mais lhe for conveniente permanecer na comunidade, pois os terrenos e os galpões onde funcionam não lhe custaram nada. Estas são as chamadas industriam itinerantes. Já os pequenos empreendedores desta terra jamais poderão fugir quando os negócios não estiverem mais dando lucro.
Alem do “parque industrial” pleiteado e da anistia fiscal é imperativo que se faça à inclusão desses trabalhadores autônomos de maneira ponderada. Nesse sentido, a educação e a formação profissional devem ser tratadas como questões centrais.A capacitação técnica e administrativa é uma necessidade imediata para sua inclusão no mercado formal. Credito mais barato para todos e doação de equipamentos para os “nanos” produtores são ajudas indispensáveis. Mas tudo isso só fará sentido se for acompanhado por campanhas de conscientização e muito esforço contínuos, a fim de garantir o mínimo de sucesso dessa intervenção.
Concomitantemente àquelas ações é também conveniente pensar-se na organização da produção. Talvez a organização em cooperativas de produção seja a melhor, embora possa se examinar outras formas organizativas. O grande desafio da organização, seja ela em cooperativas, em grupos de produtores, associações ou até mesmo em empresas mercantis, é conseguir-se apresentar significados tangíveis, imediatos que estimule a mudança do processo produtivo de individualista para um colaboracionista ou da concorrência desmedida para a cooperação solidária que soma forças e competências dos produtores para enfrentar os desafios impostos pelo mercado.
Se você leu este ensaio de discussão, dê sua opinião sobre a pretendida intervenção do governo nesse setor produtivo de Ipirá!
Obrigado.
LAURENTINO FREITAS AZEVEDO
PROF.
ECONOMISTA
COOPATIVISTA
É comum se ouvir de empresários bem sucedidos que, se o governo não atrapalhasse as atividades empresariais já estaria ajudando muito. Este é um pensamento com o qual não concordamos. Não, porque ele é a essência do liberalismo econômico em sua origem. Recordo que na pré-Revolução Industrial, um cidadão escocês chamado Adam Smith o pai do liberalismo econômico, já dizia em sua famosa obra “A Riqueza das Nações”, que: “o individuo ao buscar realizar seus próprios interesses, estará realizando sem saber, o interesse de toda sociedade”. Essa frase ficou conhecida mundialmente como a “metáfora da mão invisível” e foi apropriada por teórico e políticos, para nortearem suas ações e fundarem a ideologia do estado-minimo e da não-intervenção do Estado na vida econômica das nações capitalistas.
No entanto, a trajetória histórica, depois de mais de dois séculos, mostrou que o liberalismo e sua ideologia do estado-mínimo gerou exclusão e miséria por toda parte. Para que haja inclusão social e econômica daqueles que estão vivendo á margem do desenvolvimento ou na informalidade, a intervenção do poder público é decisiva. É forçoso o reconhecimento de que se deixado à própria sorte, os pequenos empreendedores serão devorados pela força avassaladora do grande capital.
Até que o capitalismo se mostrou eficiente na geração e concentração de riquezas. Porem do lado da distribuição, que deveria ser o seu primeiro objetivo foi um desastre social. Portanto, se os pequenos produtores não se organizarem, de forma cooperativa e solidária, com o apoio do governo e da própria sociedade civil, perderão seu espaço heroicamente conquistado no mundo dos negócios.
A produção manufatureira de obras de couro em Ipirá é uma produção espontânea que demonstra a capacidade criativa de homens e mulheres inspirados na confiança no trabalho honesto. Há quase um século, essa comunidade criativa (originária de povoados e comunidades rurais) produz para atender a demanda de produtos úteis e necessários a cada época de sua existência. Primeiro, fornecendo roupa e artefatos de couro para os vaqueiros e suas montarias. Agora, reafirmando a sua ilimitada capacidade de adaptação aos novos tempos, produz obras de couro mais sofisticadas que atende não mais as necessidades dos antigos clientes, mas às pessoas comuns e até mesmo às elites, uma vez que tem capitado as tendências da moda, produzindo bolsas, cintos, calçados etc para cavalheiros e damas do povo e da alta sociedade, conquistando mercados em feiras-livres e shopping centers em quase todos os grandes centros urbanos nacionais e até no exterior.
Daí a importância da intervenção positiva do governo para reduzir a assimetria do poder econômico. Entretanto qualquer intervenção do poder publico nas atividades produtivas de artefatos de couro de Ipirá precisa ser estudada e avaliada por critérios econômicos, sociais e culturais para que não venha produzir efeitos contrários ou inversos aos desejados. É preciso conhecer esse processo produtivo a fundo.
Aos observadores mais atentos dessa atividade não pode escapar certas peculiaridades e características que lhes são próprias. Parece até que a Revolução Industrial, aquela que ocorreu na Europa no século XVIII, está chegando aqui neste momento. As relações de produção, especialmente as relações de trabalho, são as mais precárias, conservando apesar do tempo decorrido seus traços contraditórios e conflitivos. Lá na Inglaterra, há dois séculos, os trabalhadores trabalhavam mais de quinze horas diárias. Não tinham nenhum direito trabalhista e previdenciário. Homens, mulheres e crianças eram explorados igualmente. A divisão do trabalho e a linha de montagem se estabeleceram para mudar todo o processo de produção. O artesanato praticamente desapareceu e os artesãos que tiveram mais sorte se tornaram operários, mas a maioria deles foi excluída, pois se tornaram inúteis ao novo sistema.
Aqui em Ipirá, em grande parte das “industrias de fundo de quintal”, que alguns insistem em chamar isso de artesanato, ocorre o mesmo. Lá pela ganância de acumular capital. Aqui pela necessidade de continuar uma atividade de baixa produtividade, pela falta de recursos para adotar métodos produtivos e tecnológicos mais modernos existentes no mercado, o que coloca estes pequenos produtores em atitudes defensivas, mesmo que isso signifique a mais cruel exploração e a mais acirrada e darwiniana competição entre eles. Este é o custo pago por todos os excluídos do mercado oficial para continuar existindo. Mal assim, porém as coisas sempre podem ser piores para eles. Não ter o que fazer para conseguir pequenos rendimentos é ainda mais doloroso e todos sabem disso muito bem.
Como já dissemos, por mais nobres que sejam as intenções de uma intervenção governamental nesse processo ela deve ser bem criteriosa. Lembro aqui, a propósito, aquela estória do homem que ao ver um peixinho se debatendo entre pedras de uma pequena correnteza foi socorrê-lo. Pegou o animalzinho aquático, tirou-o da água, mas, logo depois percebeu que o peixinho estava morrendo em suas mãos por falta de oxigênio. Pois bem, se não agir com competência neste ambiente produtivo de obras de couro em nosso município, em lugar da pretendida boa ação, como fez o homem que queria salvar o peixinho, pode-se estar asfixiando os pequenos empreendedores.
A pequena produção manufatureira desse segmento, com grande freqüência, ocorre literalmente em fundo de quintal. A primeira pergunta a se fazer nesse caso, em meu entendimento, é: por que elas funcionam nesses locais? A primeira resposta é bem obvia: Os donos não têm condições de possuir instalações mais adequadas. A segunda, pode não ser tão clara assim para os que não conhecem bem o processo. Vou arriscar um palpite para provocar uma discussão: será que não é por medo do governo? Medo da fiscalização do poder publico? Medo de pagarem impostos e ter que cumprir as obrigações trabalhistas e previdenciárias?
Soube de um caso em que o proprietário contratava menor de idade para trabalhar lá no fundo da casa escondido, embora houvesse espaço na frente de sua residência.
Nesse “submercado", se tiver que pagar impostos, cumprir obrigações sociais e trabalhistas, os proprietários fecharão as portas, perdendo o próprio emprego e o de seus comandados.
Esse produtor, como muitos outros, talvez não aceite a principio se incorporar ao “parque industrial” que o prefeito Diomario reivindicou como ajuda do estado, para oferecer aos pequenos empreendedores do ramo. Acho que todos estão de acordo com essa justa solicitação e com muitas outras complementares. Por exemplo, já que não se pode pedir anistia de obrigações trabalhistas por ser injusta com os trabalhadores, que se exija anistia fiscal para esses produtores durante o tempo necessário para que os mesmos possam se estruturar. Afinal de contas, concederam anistia desse tipo para a industria de calçados Paquetá. Essa industria do Rio Grande do Sul impôs essa condição para se instalar aqui e a obteve, alem do terreno terraplenado. Dizem que até galpões conseguiu. As industrias forâneas que sob o argumento de descentralização industrial obtém esse tipo de ajuda publica, além de reduzir seus custos ficam livres para migrarem para outras regiões quando não mais lhe for conveniente permanecer na comunidade, pois os terrenos e os galpões onde funcionam não lhe custaram nada. Estas são as chamadas industriam itinerantes. Já os pequenos empreendedores desta terra jamais poderão fugir quando os negócios não estiverem mais dando lucro.
Alem do “parque industrial” pleiteado e da anistia fiscal é imperativo que se faça à inclusão desses trabalhadores autônomos de maneira ponderada. Nesse sentido, a educação e a formação profissional devem ser tratadas como questões centrais.A capacitação técnica e administrativa é uma necessidade imediata para sua inclusão no mercado formal. Credito mais barato para todos e doação de equipamentos para os “nanos” produtores são ajudas indispensáveis. Mas tudo isso só fará sentido se for acompanhado por campanhas de conscientização e muito esforço contínuos, a fim de garantir o mínimo de sucesso dessa intervenção.
Concomitantemente àquelas ações é também conveniente pensar-se na organização da produção. Talvez a organização em cooperativas de produção seja a melhor, embora possa se examinar outras formas organizativas. O grande desafio da organização, seja ela em cooperativas, em grupos de produtores, associações ou até mesmo em empresas mercantis, é conseguir-se apresentar significados tangíveis, imediatos que estimule a mudança do processo produtivo de individualista para um colaboracionista ou da concorrência desmedida para a cooperação solidária que soma forças e competências dos produtores para enfrentar os desafios impostos pelo mercado.
Se você leu este ensaio de discussão, dê sua opinião sobre a pretendida intervenção do governo nesse setor produtivo de Ipirá!
Obrigado.
LAURENTINO FREITAS AZEVEDO
PROF.
ECONOMISTA
COOPATIVISTA
